Livre-se: Quando voltará o tempo dos “pele-vermelha”?

///Livre-se: Quando voltará o tempo dos “pele-vermelha”?

Em uma época em que a discussão sobre os indígenas está em evidência, convém lembrar do O Guarani, de José de Alencar, escrito em um período em que as virtudes do índio e da natureza eram exaltados em livros

Ilustração de um exemplar de O Guarani da coleção Clássicos da Juventude da Editora Itatiaia (Belo Horizonte, 1964). O livro não traz o nome do ilustrador

 

Por Leticia Lopes Ferreira

“Índio só serve para plantar mandioca”, disse uma pessoa que conheço há alguns dias, acrescentando, como algo negativo, que no Brasil os índios querem usar tênis e carros caros. Aliando essa frase horrível a outras que tenho ouvido sobre os povos nativos do Brasil e nossas questões ambientais e sobre demarcações de terras indígenas, lembrei-me de quando exaltar o índio e a natureza eram moda no país, e me deu vontade de pescar mais um clássico já muito falado: O Guarani, leitura escolar obrigatória.

Na primeira vez em que li O Guarani, de José de Alencar, escritor brasileiro do período romântico, eu devia ter onze anos, e a personagem que mais chamou a minha atenção foi Isabel, a prima de Ceci. Nesse romance, talvez o mais popular de Alencar, não há apenas um índio de personalidade forte, mas dois: Peri e Isabel. Isabel é metade índia e não foi, como Peri, criada como “selvagem”. Ainda assim, não é uma mulher comum, principalmente para as épocas em que o romance se passa e em que foi escrito. A história se passa no Brasil colônia do século 17, quando certamente não era comum uma mulher declarar amor ao noivo da prima. Mas essa personagem, Isabel, uma mulher com sangue índio, criada como branca – mas vivendo “de favor” na casa de parentes –, em uma época que os índios eram considerados nada mais que animais, declara seu amor por um homem branco, rico e comprometido. Aquilo me impressionou bastante e não entendi por que ninguém falava nela, só em Peri e Ceci. Ainda não entendo e espero agora estar fazendo um pouco de justiça a essa personagem.

Aos onze anos, eu achava que José de Alencar era um escritor “de antigamente”, que se alongava em descrições desnecessárias e chatas, com palavras que eu tinha que procurar no dicionário (quem diria que “espáduas” é uma palavra muito mais bonita para “costas” – são tão tristes as versões adaptadas que somem essas palavras estranhas). Eram as intrigas dramáticas que ele contava e aquelas mulheres cheias de brio que deixavam meu coração púbere palpitando. Mulheres como aquela prima Isabel e as de outras histórias dele, como de Senhora, Lucíola, Diva.

O Guarani não tinha me interessado até então. Eu já não tinha gostado de Iracema e muito menos de Ubirajara (perdoem-me) que, com O Guarani, formam a trilogia indigenista de Alencar. Menina branca de classe média, criada em uma família e um ambiente que, sem ser abertamente racista, também não era abertamente não racista (eu tinha uma boneca negra, mas nenhum colega de escola ou vizinho negro), eu não tinha o menor conhecimento ou interesse por histórias ou realidades indígenas.

Eu ainda não tinha sensibilidade também para reparar na poesia do romantismo brasileiro, do indianismo idealizado que exaltava com nacionalismo a riqueza da flora e da fauna e as virtudes do nativo do Brasil. A beleza santa, virginal e um tanto infantilizada de Ceci, que imaginei dando muito trabalho a Peri ao tentar sobreviver no meio da selva, depois de ter sido criada com tanto luxo e comodidade, era enjoativa para mim. A cobiça e a vingança dos inimigos do pai de Ceci me pareciam coisa de filme de sessão da tarde. E então, no meio daquilo, apareceu aquela mulher diferente, Isabel, a prima (na verdade irmã) de Ceci: nada de pele alva, ou cara de virgem Maria, ou privilégios de filha de rei, mas sim, mistérios, ódios e olhares ardentes. “Cecília era a graça; Isabel era a paixão.” Alguém muito menos perfeita do que Ceci ou Peri, uma personagem contraditória, ambígua e em constantes batalhas internas:

“Filha de duas raças inimigas devia amar a ambas; entretanto minha mãe desgraçada fez-me odiar a uma, o desdém com que me tratam fez-me desprezar a outra.”

E Isabel sofria um amor secreto e impossível: o que é melhor do que isso para atrair a leitora romântica à beira da adolescência que eu era?

“Isabel, a pobre menina, fitava sobre Álvaro os seus grandes olhos negros, cheios de amargura e de tristeza; sua alma parecia coar-se naquele raio luminoso e ir curvar-se aos pés do moço.”

Sentimental? Piegas? Quase uma novela mexicana? Quem se importa? Não eu aos onze anos, não eu hoje. O melhor mesmo estava por vir e tornaria Isabel minha personagem preferida de O Guarani e, desconfio, a preferida de José de Alencar também: ela tomaria a dianteira e se declararia a Álvaro. Certo é que, ao se declarar, ela foi levada pelas circunstâncias, que a prima Ceci deu uma mãozinha, que o próprio Álvaro, parece-nos, já desconfiado, deu uma forçada também, e que depois Isabel pediu perdão pela ousadia. Ainda assim, só se declarou por ser corajosa e honesta. No lugar dela, outras pessoas ou personagens teriam fugido ou mentido. A cena cheia de sensualidade contida em que ela se declara e deixa o rapaz impressionado até a tontura é extremamente dramática:

“Não sabeis que segredos tem esse amor que vive só de suas ilusões, sem que um olhar, uma palavra o alimente. A mais pequenina coisa é um prazer, uma ventura suprema. Quantas vezes não acompanhava o raio de lua que entrava pela minha janela e que vinha a pouco e pouco se aproximando de mim; julgava ver naquela doce claridade o vosso semblante, e esperava trêmula de prazer como se vos esperasse. Quando o raio se chegava, quando a sua luz acetinada cala sobre mim, sentia um gozo imenso; acreditava que me sorríeis, que vossas mãos apertavam as minhas, que vosso rosto se reclinava para mim, e vossos lábios me falavam…”

Imagino que alguém possa apontar que Isabel, assim como Ceci e Peri, também é uma personagem idealizada, afinal, é descrita como uma mulher também de grande beleza física, bondade, cristianismo e que, de certa forma, sabia “seu lugar”. Mas proponho que não sejamos tão severos com um escritor do nosso período romântico, inspirado pelas narrativas medievais de cavalaria, pronto a exaltar qualidades de forma maniqueísta. Querer que ele descrevesse uma heroína sem beleza física e bondade seria ingênuo não da parte dele, mas da nossa. A mim bastou, quando eu era criança, que ele me oferecesse uma personagem feminina que, a um tempo, humanizada e idealizada, pareceu-me tão intensa e instigante que me toca até hoje. Uma mulher que admitia ter desejos que então só eram permitidos aos homens, que admitia até odiar e, ainda assim, mantinha-se fiel ao que acreditava e amava, ainda que isso lhe custasse e doesse, ainda que percebesse o quando a vida lhe havia reservado o lado das sombras e não lhe desse opções. Em suma, era uma mulher com a coragem que eu queria ter e que ainda me inspira.

Alencar teve alguns exemplos de pessoas disruptivas, para usar uma palavra da moda, em quem se inspirar, e um exemplo de mulher bastante incomum. O pai era padre, ele e a mãe de Alencar eram primos. Quando deixou de ser padre, o pai de Alencar se tornou senador da República. A avó paterna foi uma mulher revolucionária. Bárbara Pereira de Alencar é considerada a primeira prisioneira política do Brasil: durante a Revolução Pernambucana de 1817 (que pretendia proclamar a república no Brasil), foi presa e torturada. É personagem do livro Romanceiro de Bárbara (Caetano Ximenes de Aragão, 1980), sobre a Confederação do Equador (movimento pernambucano de resistência ao imperador Dom Pedro I), que conta, em versos épicos, as peripécias dessa nordestina marcante.

O último dos guaranis
Gostamos de imaginar o que acontece depois do fim dos livros, e há livros em que o fim é feito exatamente para isso, como O Guarani. Depois de o temporal, como um dilúvio renovador, cair sobre aquela terra, Peri e Ceci desaparecerem no horizonte, e não sabemos mais o que foi. Ali está o sonho de ver as duas raças amorosamente condensadas e – que esse detalhe não nos escape: com o índio se sobrepondo. Se lembrarmos que então o homem era o cabeça da família, o líder da mulher, O Guarani segue com o índio no comando, ainda mais porque conhece e domina os segredos e perigos da mata. O índio, simbolizado por Peri, se sobrepõe ao branco, simbolizado por Ceci; o índio domina o branco. Amorosamente, mas domina. De conquistado, tornar-se conquistador. Ou “reconquistador”, retomando a posse do que lhe foi tirado, a terra, e, se tomarmos o sentido bíblico do verbo “possuir”, de quando um homem “possui” uma mulher, Peri retoma também a posse da carne de outro ser humano. Assim, de ser “possuído”, como escravo que era, Peri passa a “possuidor”. A conquista que Isabel, por ser mulher, não conseguiria, caso fossem ela e Álvaro o casal sobrevivente, Peri alcançará.

O Guarani me faz lembrar outro livro, e não sou a única a quem ocorre essa comparação, embora José de Alencar a tenha rechaçado: O Último dos Moicanos, de James Fenimore Cooper (The Last of the Mohicans: A Narrative of 1757, 1826, Estados Unidos). Nesse livro, dois índios moicanos norte-americanos, pai e filho, tentam ajudar duas jovens se reunir ao pai, um general inglês, na América do Norte, durante a disputa entre França e Inglaterra pelas terras daquela região. Em uma das cenas do livro, um ritual fúnebre indígena, é dito: “os caras-pálidas são senhores da terra, e o tempo dos peles-vermelhas ainda não voltou”.

E os guaranis? Quando o tempo deles voltará? O que restou do sonho de Alencar, fosse um sonho dele de fato ou não? O sonho de exaltação do nativo brasileiro, de harmonização entre as raças? Se dermos um grande pulo da ficção à realidade brasileira, veremos que, segundo a ONG Survival, os guaranis ainda são o maior povo indígena no Brasil: 51 mil pessoas (entre uma população de 209,3 milhões de brasileiros – 2017): “Durante os últimos 100 anos, quase toda a sua terra foi roubada e transformada em vastas redes secas de fazendas de gado e plantações de soja e cana de açúcar. Muitas comunidades estão morando em reservas superlotadas, e outras vivem sob lonas em beiras de estradas”.

Parece que, caso não façamos algo para evitar isso, irá nos restar somente os sonhos e, por enquanto, os livros. Todos os livros citados aqui estão disponíveis para empréstimo na Biblioteca Pública do Paraná.

 

Letícia Lopes Ferreira é jornalista, mestre em Letras e ama livros e filmes.

2019-02-21T17:16:38-03:00 21 fevereiro - 2019 |0 Comentários

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