Depois de ler esse clássico da literatura norte-americana, me parece que ninguém mais deveria escrever sobre nada

Por Letícia Lopes Ferreira

“Arturo Bandini: O que é felicidade para você, Camilla?
Camilla: Poder se apaixonar por quem a gente quiser, sem ter vergonha disso.”
(Tradução livre.)

Meu destino seria escrever sobre livros que todo mundo já leu e sobre os quais todo mundo já falou? Talvez; e se for, tudo bem. Em 2019, Pergunte ao Pó [Ask the Dust], de John Fante, completa oitenta anos. Um clássico, um bestseller de oitenta anos, e só li agora. Em abril. Mas depois de ler esse clássico da literatura norte-americana, me parece que ninguém mais deveria escrever sobre nada. Calem-se! “Fante era o meu Deus”, disse Charles Bukowski. A Bíblia diz que Jesus Cristo é palavra de Deus encarnada, que veio ao mundo para salvar a humanidade. Talvez Bukowski tenha razão, e Fante seja um deus para todos nós que amamos literatura, já que a palavra de Fante parece ter encarnado em Pergunte ao Pó para nos salvar de tudo o que é sem graça.

Exageros de quem acabou de ler pela primeira vez à parte, não posso negar a sensação de que tudo, ou tanto, foi dito da forma mais eloquente. Há tempos eu queria ler esse livro sobre o personagem (inspirado na vida do autor) ítalo-americano Arturo Bandini, um aspirante a escritor muito jovem, vivendo pobre e sozinho na Los Angeles da década de 1930. Queria ler desde que descobri sua existência ao assistir ao filme de 2006, com os ótimos Colin Farrell e Salma Hayek. O título curioso me atraiu. Pó? Drogas? Não… A exuberância das estrelas hollywoodianas não combina com a exuberância da miséria gloriosa dos personagens. Hoje eu não me lembro do filme nada além do romance temperamental entre Arturo e Camilla, a garçonete mexicana malcriada e bonita. A história foi novidade para mim. E mais que a história, a prosa de Fante sobre a paixão, a cidade e a morte me pegou pelo pescoço, me deu uns safanões e uns beijos, me levou para dançar no deserto e nadar no quebra-mar. Foi, como se diz por aí, uma experiência. Sobretudo uma experiência sobre a solidão. Não importa quem amamos, não importa o que sejamos ou façamos; do pó viemos e ao pó retornaremos, nós e as cidades, e os desertos, e as montanhas.

“Assassino ou bartender ou escritor, não importava: seu destino era o destino comum a todos, seu fim, o meu fim; e aqui, esta noite, nesta cidade de janelas escuras, há outros milhões como ele e como eu: tão indistinguíveis quanto as folhas de grama morrendo. Viver já era difícil o suficiente. Morrer era uma tarefa suprema.” (Tradução livre.)

Arturo Bandini é acusado de racismo, machismo e outros crimes. Bandini é racista, machista e muitas vezes cruel. Muito cruel, como tantos outros personagens e pessoas. Talvez como todas as pessoas, de certa forma. Mas não creio que seja essencialmente mau. Ele comete pecados, é ingênuo, tem medo. Ele vive e escreve. E ama. Nada nos impede de pensar dele o que quisermos, não precisamos concordar com tudo o que as histórias nos contam, não precisamos imitar os personagens. Não precisamos nem gostar tanto assim dos personagens para amá-los. Nem das pessoas, aliás. Ao ler Pergunte ao Pó, não julgue, vá. Ou julgue, se quiser, mas vá. E pegue esta frase (entre outras): “Algo como uma flor cinzenta brotou entre nós, um pensamento que tomou forma e falou do abismo que nos separava.” (Tradução livre).

Uma fada-madrinha chamada Bukowski
Apesar de toda a habilidade e sensibilidade de Fante, ele também precisou de sorte. Sabe-se como Bukowski teve papel determinante na carreira de Fante, a história faz parte do anedotário da literatura mundial. Bukowski se apaixonou por Pergunte ao Pó quando ainda não era sucesso, depois de encontrar o livro ao acaso em uma biblioteca pública. Anos mais tarde, decidiu mostrá-lo ao próprio editor, o que fez toda a diferença na promoção do livro, levando-o à fama e ao amor do público. “É incrível pensar, no entanto, que se um jovem Charles Bukowski não tivesse visto Pergunte ao Pó na biblioteca de Los Angeles, o livro poderia nunca ter feito sucesso: provavelmente teria ficado fora de catálogo, e Fante provavelmente seria lembrado, se fosse lembrado, como apenas mais um roteirista acabado e um escritor fracassado. Em vez disso, hoje ele é visto como um grande autor da era pré-beatnik, que escreveu um dos romances mais influentes e importantes dos últimos 70 anos”, diz um artigo de dez anos atrás do jornal The Guardian (tradução livre).

Fante teve a sorte de alguém tê-lo visto e reconhecido. Mas não apenas isso. Alguém o viu, o reconheceu e o levou para a luz. É uma pena que existam pessoas que, tendo olhos para ver, não tenham um coração para levar o que veem à luz.

 


Letícia Lopes Ferreira é jornalista, mestre em Letras e ama livros e filmes.